Juína (MT), 29 de abril de 2025 — O Instituto Saberes realizou o Seminário 03 – Projetos do Segmento Audiovisual, encontro que marcou o encerramento do Curso de Elaboração, Execução e Prestação de Contas de Projetos Culturais. Transmitido ao vivo para alunos e para o público em geral, o evento reuniu profissionais com ampla trajetória no audiovisual para discutir políticas públicas, formação, produção, distribuição e os desafios estruturais do cinema fora do eixo Rio–São Paulo.
A abertura foi conduzida pela produtora cultural, Silvia Machado, que apresentou um panorama da formação iniciada em outubro de 2024. Ao longo de dez aulas, três seminários, uma aula extra de elaboração de portfólio e consultorias individuais, o curso abordou temas que vão da escrita de projetos e captação de recursos até execução, divulgação e prestação de contas, consolidando uma formação completa voltada a agentes culturais de diferentes linguagens.
AUDIOVISUAL, POLÍTICAS PÚBLICAS E TRAJETÓRIA PROFISSIONAL
A primeira convidada da noite foi a diretora, roteirista e produtora Daniele Bertolini, referência do audiovisual mato-grossense. Em uma fala marcada por relatos autobiográficos, Daniele traçou sua trajetória desde os primeiros documentários produzidos ainda na universidade até a realização de longas-metragens exibidos em festivais nacionais e internacionais.
A palestrante destacou que não existe produção audiovisual sem políticas públicas contínuas, ressaltando a importância de mecanismos como a Lei Paulo Gustavo, a Política Nacional Aldir Blanc e o Fundo Setorial do Audiovisual. Segundo ela, a atuação em associações de classe, fóruns e entidades representativas é parte fundamental do trabalho no cinema, pois fortalece o setor e garante condições de produção a longo prazo.
Daniele também abordou os processos criativos, explicando que filmes demandam tempo de maturação, pesquisa e montagem, muitas vezes incompatíveis com prazos curtos de editais. A diretora chamou atenção para a necessidade de pensar o audiovisual como uma indústria cultural, que envolve criação, financiamento, circulação, mercado e público.
DISTRIBUIÇÃO, MERCADO E INTERNACIONALIZAÇÃO
Outro eixo central da discussão foi a distribuição audiovisual, apontada como um dos maiores gargalos do cinema independente. Daniele relatou experiências em mercados nacionais e internacionais, defendendo que produtores do Centro-Oeste precisam investir em redes de parceria, participação em laboratórios, rodadas de negócios e mercados internacionais, além do domínio de outros idiomas como inglês e espanhol.
A palestrante destacou ainda a importância de construir uma carteira de projetos, compreendendo que nem todas as ideias se concretizam, mas que o fortalecimento coletivo do setor amplia as chances de circulação das obras. A internacionalização, segundo ela, deixou de ser opção e tornou-se uma necessidade estratégica para a sobrevivência do audiovisual brasileiro.
FORMAÇÃO TÉCNICA E SOM NO CINEMA
Na sequência, a professora Taís Oliveira, docente do curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Estadual de Goiás, apresentou um olhar complementar ao abordar a formação técnica no audiovisual, com ênfase no som para cinema. Taís compartilhou sua trajetória acadêmica e profissional, destacando a carência histórica de profissionais especializados, especialmente mulheres, nas áreas técnicas do audiovisual.
A professora apresentou o Núcleo Audiovisual de Produção de Foley, projeto desenvolvido na universidade, que forma profissionais em criação sonora para cinema a partir de práticas experimentais. Ela explicou como o som é recriado a partir da imagem e mostrou exemplos de ações formativas, festivais e projetos de extensão que ampliam o acesso ao audiovisual e fortalecem a formação profissional.
FESTIVAIS, FORMAÇÃO E MEMÓRIA AUDIOVISUAL
Taís também abordou os festivais de cinema como espaços formativos, destacando que eles não se limitam à exibição de filmes, mas incluem oficinas, laboratórios e atividades educativas. Foram citados festivais que atuam como porta de entrada para jovens e crianças, despertando interesse pelo cinema e pela formação acadêmica na área.
Outro ponto importante foi a falta de acervos organizados e políticas de preservação da memória audiovisual, especialmente no Centro-Oeste. As palestrantes alertaram para o risco de perda de produções históricas e defenderam projetos voltados à catalogação, digitalização e salvaguarda dos filmes produzidos na região.
CAPTAÇÃO DE RECURSOS E SUSTENTABILIDADE
No debate com o público, Daniele e Taís reforçaram que os editais públicos continuam sendo o principal caminho de financiamento, mas não o único. Parcerias institucionais, emendas parlamentares, fundos nacionais e internacionais e iniciativas privadas também foram apontadas como alternativas viáveis.
As convidadas ressaltaram que é fundamental alinhar o perfil do projeto ao tipo de financiamento buscado e compreender que a sustentabilidade no audiovisual exige planejamento, resiliência e cuidado com a saúde mental dos profissionais envolvidos.
MULHERES, DIVERSIDADE E NOVAS FORMAS DE FAZER CINEMA
A reta final do seminário trouxe reflexões sobre mulheres no cinema, diversidade e novas práticas de liderança. Daniele relatou desafios enfrentados como mulher à frente de grandes equipes e defendeu modelos de gestão mais colaborativos, inclusivos e atentos às questões de gênero, raça e diversidade cultural.
Foi destacado o protagonismo crescente de produções realizadas por mulheres e povos indígenas, apontadas como algumas das experiências mais inovadoras do cinema brasileiro contemporâneo.
ENCERRAMENTO DO CURSO
O Seminário 03 encerrou oficialmente o curso, que formou agentes culturais em diferentes territórios e resultou em impactos concretos, como aprovações em editais e fortalecimento de redes locais. A coordenação reforçou a importância do registro de presença para certificação e anunciou a intenção de futuras edições e formações específicas voltadas ao audiovisual.
RESUMO
O Seminário 03 – Projetos do Segmento Audiovisual consolidou o encerramento do Curso de Projetos Culturais ao promover um debate profundo sobre produção, formação, políticas públicas, distribuição, mercado e diversidade no audiovisual, com foco na realidade do Centro-Oeste brasileiro e na construção coletiva de um setor cultural mais forte, inclusivo e sustentável.
REALIZAÇÃO
O Curso de Elaboração, Execução e Prestação de contas de Projetos Culturais é uma realização do Instituto Saberes em parceria com a SECEL – Secretaria de Estado da Cultura, Esporte e Lazer, com o apoio da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.